No princípio, era o baile... (parte 1)


A gênese do tango se processou de forma complexa e multifacetada, primeiramente como baile popular e da mescla de gêneros musicais, para, mais tarde, incorporar o canto. 

Nos primórdios, a sociedade rechaçava essa mistura espúria e sua dança obcena, fruto da cultura marginalizada do subúrbio, praticada nos bordéis que, além da sordidez dos ambientes em que era bailada, apresentava o disparate, para a época, de um casal abraçado.

(continua...)


Um Pouco de Historia


O tango, a rigor, compreende um gênero musical e uma dança, mas revela-se como um complexo fenômeno cultural, na medida em que também envolve poesia, espetáculos, campeonatos, cinema, moda e turismo em uma relação com o público, permeada por expectativas e fantasia. O tango evoca um “quê” de nostalgia, excitação e desafio, ao qual dificilmente se pode ficar imune.


Talvez o nascimento em circunstâncias obscuras e transgressoras, no sub-mundo portenho, nas docas, nas rodas de candombe e nos prostíbulos, nos aledanos, cinturão dos subúrbios de Buenos Aires, em que a cidade e a pampa se confundem, possa apontar a para a origem de seu savor affaire: “Del fango viene el tango”, reza o dito popular.


 É na periferia, onde os recursos de vida dos miseráveis provinham basicamente da prostituição, do logro e do roubo, que se constitui terreno fértil para o nascimento e desenvolvimento do tango. Ali, nos conventillos dos arrabaldes, amontoavam-se em condições inumanas imigrantes e criollos, que encontravam, no tango, o elemento comum, capaz de propiciar sua coexistência, apesar das diferenças, já que abrigava igualmente o descontentamento e angústia em que aqueles se encontravam...

El Tango

Donde estarán? , pregunta la elegía
de quienes ya no son, como si hubiera
una región en que el Ayer pudiera
ser el Hoy, el Aún y el Todavía.

Dónde estará (repito) el malevaje
que fundó, en polvorientos callejones
de tierra o en perdidas poblaciones,
la secta del cuchillo y del corage?

(...)

Una mitologia de puñales
lentamente se aluna en el olvido;
una canción de gesta se ha perdido
en sórdidas noticias policiales.

Hay otra brasa, otra cadente rosa
de la ceniza que los guarda enteros;
ahí están los soberbios cuchilleros
y el peso de la daga silenciosa.

Aunque la daga hostil o esa otra daga,
el tiempo, los perdieron en el fango,
hoy, más allá del tiempo y de la aciaga
muerte, esos muertos viven en el tango.

En la música están, en el cordaje
de la terca guitarra trabajosa,
que trama en la milonga venturosa
la fiesta y la inocencia del corage.
(...)
En los acordes hay perdidas cosas:
el otro patio y la entrevista parra.
(Detrás de las paredes recelosas
el Sur guarda un puñal y una guitarra.)

Esa ráfaga, el tango, esa diablura,
los atareados años desafía;
hecho de polvo y tiempo, el hombre dura
menos que la liviana melodía,
que solo es tiempo.
El tango crea un turbio
pasado irreal que de algún modo es cierto,
un recuerdo imposible de haber muerto
peleando, en una esquina del suburbio.

Jorge Luis Borges


Tango, Simplemente...


Gostaria de iniciar este blog tecendo algumas reflexões acerca de nosso trabalho e seu nome. Simplemente Tango, para nós, é emblemático, traduz nossa condição detangueros, não por nascimento, mas por opção. Me explico: fazemos parte daqueles que, embora não sejam portenhos, nem mesmo argentinos, consideram-se dignos de um quinhão no universo tangueiro... Mas baseados em qual critério, já que jus sanguinis ou o jus territorialis nos tornaria ilegítimos de tal herança? Ora, baseados no sentimento, o sentimento tanguero. Postulamos, para tanto, a existência de um novo critério (ou não tão novo assim), o jus sentimentalis, pressuposto da universalidade do tango. Mais uma vez me explico: Considerando a capacidade, desde suas origens, de fascinar, nos mais distintos pontos do planeta, em diferentes épocas e mobilizando pessoas de distintas classes sociais, torna-se óbvio o caráter universal de uma manifestação tão particular como tango. Exemplo disso são a verdadeira febre que o tango suscitou na França e Europa, no início do século XX e que permitiu a aceitação do mesmo na própria sociedade que o engendrou; bem como o fenômeno atual, em que, mais do que um produto a ser consumido, o tango surge como uma manifestação cultural a ser vivida, tanto na cidade de Buenos Aires como fora e até mesmo distante dela. É que o tango, com suas peculiaridades, seus mitos, suas persognagens, seu savor affaire tão tipicamente portenhos, toca a alma humana e varre fronteiras. Em sua particularidade, ele se torna universal. Ele fala da dor, do desejo, da derrota, do prazer e da desilusão, da busca por se tornar inteiro de qualquer um. Ele facilmente invade nosso imaginário com promessas de aventura, arrebantamento, vida e simplesmente passa a correr em nossas veias. Ele nos aproxima, lembrando-nos de que, se uma música, uma dança, um fenômeno cultural de outrém nos toca, é porque todos temos aspectos em comum, aqueles que nos tornam humanos. Assim, arrisco a sugerir que isso faz do sentimiento tanguero, em última instância, mais do que um fenômeno cultural ou patrimônio cultural de um povo, parte do patrimônio imaginário humano. E porque sentimos na pele e na carne o apelo do tango, porque ele nos faz sentir vivos, quisemos fazer dele nosso trabalho e expressão de nossas vidas. Nem mais, nem menos, Simplemente Tango.
 
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